MAIS UMA HISTÓRIA ENGRAÇADA DO CARPE DIEM
Num quinteto vocal que canta “a capella “, não é permitido desafinar. Afinal, cada um tem sua linha melódica. A sensação de estar desafinando enquanto se canta, no caso de um grupo como o nosso em que cada um tem que fazer o seu papel, sem acompanhamento instrumental, é terrível. Você tem a impressão de que está sendo sugado para dentro de um ralo fazendo uma força incrível para que isso não aconteça. Mas, quando acontece, a desafinação é geral. A maionese desanda. Bate uma insegurança, e é muito difícil disfarçar. A insegurança contagia e passa a ser geral. Se o público não for muito bom de ouvido, pode até nem notar(musicalmente falando), mas com certeza percebe pelas fisionomias dos cantores, de que algo não vai bem.Pois bem, agora imagine um público formado de "experts" em música e que este público está ali para avaliar um trabalho seu. Foi exatamente assim, naquela sexta-feira fatídica, ou o dia em que fomos abduzidos.
Chegamos cedo. Não havia ainda público nenhum, a não ser Dna. Hilda mãe do Gringo e do Gugu, dois de nossos cantores. Também a Neiva e o Nathan, esposa e filho do Gringo.
Começamos com um breve aquecimento vocal, ensaiamos, nos acostumando ao palco e ensaiamos novamente. Tínhamos chegado com folga para poder passar várias vezes o repertório, afinal havia uma música em que não estávamos bem firmes.
Como sou meio desligado, achei que íamos cantar numa festa de encerramento de curso e estava relativamente tranqüilo, apesar do local: o pequeno palco do Instituto Belas Artes da UFRGS ali na Senhor do Passos.
Ao chegar lá, é que fiquei sabendo: o Paulinho, nosso regente, que canta conosco, estaria dentro de alguns minutos apresentando seu trabalho de conclusão de curso, ou seja regência, e nós fazíamos parte do seu TCC.
Corajoso ele. Não tínhamos ainda muita estrada, mas o Paulinho achou que dava, e lá estávamos nós em frente aos mais conceituados professores de música da Universidade Federal do Rio Grande do Sul .
Começou a chegar gente. A banca de avaliação formada. Éramos os primeiros da noite. Nesse momento já havia esquecido tudo o que ensaiara.
Subi ao palco, como quem entra numa nave espacial. Uma luz forte vinha de cima, não permitindo ver nada em frente. Ainda bem. Tentei fixar meu olhar na Dna Hilda e imaginar que iria cantar só para ela.
Ia começar. Nosso regente deu o tom para cada um. Ouvi uma voz ao longe que dizia desesperadamente: o tom, o tom, não peguei o tom... A essa altura já estava sendo abduzido. A luz ficara mais forte , mas começáramos a cantar assim mesmo. Antes do fim da primeira música, já não sabia se estávamos cantando. Afinal, cada um parecia ter seguido por um caminho diferente. Antes de entrar no buraco negro, ainda consegui olhar pela janelinha da nave e ver Dna. Hilda acenando da platéia com seu lencinho branco. De dentro da nave foi que percebi que estávamos todos dentro dela. Meus companheiros também haviam sido abduzidos.
Felizmente retornamos. Todos bem e prontos para novas experiências. E incrível, o Paulinho foi aprovado no seu TCC.
chw

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